Hoje é Natal!

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Texto de José Vaz

Tinha eu seis anos e, no dia 24 de dezembro, ao passar pelo lugar da minha aldeia, que tinha um nome curioso de Rego Pinheiro, os meus vizinhos, ao passaram uns pelos outros, deixaram de se saudarem com um caloroso bom dia, diziam uns aos outros, sorridentes:

– Hoje é Natal!

Saído há poucos anos da meninice a saudação para mim foi estranha e só lhe percebi o alcance muitos anos depois.

Eu conto.

Morava eu com os meus pais e minha irmã, de um ano de idade, numa pequena casinha de rés de chão.

Um dia veio morar para o lado da minha casa uma família muito mais pobre do que a nossa: a da Ti Adelaide Tintureira e dos seus filhos Domingos e a Rosa.

A sua casa tinha um telhado de chapa e uma só divisão onde ficava a cozinha e uma cama onde dormiam os três.

A cama e o colchão eram feitos de paus e de rama de pinheiro, a que dávamos o nome de moliço.

A Ti Adelaide Tintureira sobrevivia da venda de pinhas e de restos de madeiras que recolhia nos pinhais, de encher tanques de água para as vizinhas lavarem as roupas, de pequenas limpezas e de algumas esmolas.

Era viúva e a vida fora-lhe duramente madrasta, dando-lhe apenas, e  por duas vezes, de forma estranha, a negação do direito de morrer.

O marido, regressado e afetado pelos gaseamentos da primeira grande guerra de 1914-1918, fazia-lhe a vida negra, com maltratos à mistura com o vinho e o jogo, vícios onde esvaia o dinheiro da pequena féria semanal.

E o desespero da vida sem esperança levou a Ti Adelaide Tintureira a tentar por fim aquele tormento vivencial, atirando-se, por duas vezes, abaixo da Ponte de D. Luís I, no Porto.

Milagrosamente, o seu anjo da guarda estava atento e sobreviveu.

Da primeira, as saias, qual paraquedas, amorteceram o choque na água do rio e um diligente barqueiro da Ribeira do Porto impediu que ela morresse afogada.

Da segunda vez, o vento projetou-a contra os fios telefónicos, ficando aí presa e posteriormente retirada, apenas ferida num seio.

Pois foi esta família que acolhemos nessa noite de Natal de 1946.

Nessa noite vi as estrelas mudarem para os olhos verdes da Ti Adelaide Tintureira, tal foi o sentimento de gratidão dessa pobre mulher ao ser acolhida com a sua família na nossa pequena cozinha de telha vã.

Hoje é Natal! ficou-me para sempre como símbolo, não só de um dia de celebrar a fraternidade, mas do nascimento de algo que interpela incessantemente cada ser humano.

Foi nesse dia que acabou por acontecer o Natal mais lindo que vivi na minha vida.

José Vaz

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