Joaquim Calhau carregou uma história de vida muito rica!

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No funeral do sindicalista e companheiro da BASE-FUT Joaquim Calhau falecido a 10  de dezembro de 2025, a sua filha, Carla Calhau ,tomou a palavra e leu um extenso texto sobre o seu pai, a sua vida e os seus valores. Ali prometemos publicar as palavras sentidas da Carla que agradecia ter um pai como o Joaquim. Eis o texto completo que sintetiza a vida de um homem que dedicou a maior parte da sua vida à promoção e emancipação dos trabalhadores:

«Gostaríamos de agradecer a todos quantos se juntaram a nós nesta hora de dor e de perda (nomeadamente agradecer as mensagens e presenças das pessoas de Coimbra, Ribeira de Frades, Porto, Miranda do Corvo, Taveiro, Leiria e Lisboa), e, em especial, a todos aqueles que pelas vissitudes da vida já sentiram este vazio e a perda da possibilidade de poderem voltar a chamar Pai a quem nos amou como filhos.

O nosso pai carregava uma história de vida muito rica

O nosso pai nasceu a 1 de dezembro de 1941, em Ribeira de Frades, localidade perto de Coimbra, e, desde sempre, se apresentou ao mundo com grande sede de saber, pelo que foi granjeando uma formação global muito abrangente.

Foi trompista na Filarmónica de Taveiro, participou em várias competições de atletismo e foi jogador de futebol no Taveirense, porque sempre considerou o corpo a alma mater do espírito.

Em Taveiro viveu com a avó paterna, e era uma localidade onde as memórias o faziam perder nos pensamentos… quando vinha de Lisboa e nos deslocávamos a Ribeira de Frades para ver a família e os amigos, nomeadamente, as saudosas mães de família, da escassez do pós grande guerra: Piedade Rola Mendes (a nossa avó paterna) e Beatriz Grilo, nunca deixávamos de fazer a volta tradicional pela rua principal de Taveiro, onde cumprimentava familiares e amigos. É a terra de origem da família paterna, a família Calhau.

…o nosso pai carregava em si uma história muito rica de vida, porque o seu objetivo intrínseco sempre foi o de ajudar os outros sem pensar no retorno, nos interesses pessoais ou financeiros.

Foi um jovem e um Homem de espírito inquieto, o que o levou a ser notado e granjeado pelo falecido Fernando Rajado para a Juventude Operária Católica, JOC Júnior de Taveiro, em 1955, com 14 anos. Aos 24 anos já era Vogal da Direção Nacional da JOC, contactando de perto com o falecido Cardeal Cerejeira, que muitos não sabem… mas protegia estes jovens mais interventivos do Regime.

Em 1965 passou a desempenhar as funções de dirigente livre, a tempo inteiro, para a JOC, nos Distritos de Coimbra, Leiria, Aveiro, Viseu e Guarda, assim como foi correspondente, com o Curso de Jornalismo, do Jornal Juventude Operária Católica da Zona Centro.

Assumiu a Presidência da Direção Diocesana da JOC de Coimbra e desenvolveu, na Juventude Operária Católica, em conjunto com outros jovens jocistas dinâmicas de grupo que procuravam promover uma dimensão cívica e reflexiva sobre os problemas das classes operárias e dos mais desfavorecidos, preparando as populações para os tempos vindouros do 25 de Abril.

O meu pai juntamente com outros jocistas como o Fernando Abreu, o Júlio Ribeiro,  o Cesário Borga, a Vitória Pinheiro a Maria Cândida Coelho, o Brandão Guedes e tantos outros desenvolveram em vários locais deste País sessões de reflexão, ação e decisão, fomentando a necessidade de rutura com os meios de ostracização vigentes, promovendo a consciencialização das gentes para a ideia de que todos os homens e mulheres nascem livres e devem ser tratados com direitos e deveres, numa sociedade justa e igualitária promovendo a dignidade da pessoa humana.

Neste dia importa relembrar também todos  os ilustres padres que passaram pela vida do nosso pai, nomeadamente o Dr. Jardim Gonçalves e o  Padre Lucas, assim como  uma Igreja Católica que passando hoje por momentos difíceis,  ajudou na formação de muitos jovens como o nosso pai com o  incremento dos valores judaico cristãos, promovendo a educação daqueles que viriam a impulsionar as mudanças históricas relativas ao avanço cultural e ao progresso estrutural de um País que todos amamos –  Portugal.

Pertenceu ao grupo dos católicos progressistas

Em Coimbra – O nosso Pai pertenceu ao chamado grupo dos católicos progressistas – participou e  integrou diversas Assembleias dos organismos académicos e das repúblicas universitárias nos anos 60, juntamente com a Juventude Universitária Católica de Coimbra, que, atendendo ao seu papel interventivo e pelas ações realizadas, lhe conferiu e o distinguiu com o estatuto particular de Associado Honorário da Associação Académica de Coimbra, uma vez que não era estudante universitário.

Nesta cidade entrou para a Banca a 9 de Outubro de 1968, no Banco Pinto e Sotto Mayor. Em1970, foi ativista e membro organizador da 1ª Lista concorrente às eleições do Sindicato dos Bancários do Centro, em oposição à Direção Corporativista pró Regime.

Foi fundador do grupo de Ativistas Sindicais Clandestinos de Coimbra, com sede clandestina no pátio São Bernardo. Foram tempos muito difíceis…com todos os irmãos e cunhados na guerra: Cláudio Calhau; António Calhau; José Calhau; António Bicho; António Leitão – jovens cheios de sonhos, que vieram de África com a mente desfeita, e a quem este país não prestou uma verdadeira homenagem; nunca o deixaram pacífico, pelo que promoveu debates clandestinos, dinamizando grupos de intervenção distribuindo informação, trabalhou para um País livre e fraterno.

O pai foi um dos históricos fundadores da BASE-FUT em 1966, das Edições Base e da União de Sindicatos de Coimbra/que posteriormente formou a CGTP, no Pós 25 de Abril.

Foi Membro dos grupos Sindicais de Coimbra contestatários da Lei da Unicidade Sindical. Deste tempo fica a referência a José Barreto Roque, Odete Isabel, António José Neto e a Carlos Cidade.

Integrou a Direção Nacional da CGTP

Em Lisboa – Nos primeiros tempos da Revolução de Abril integrou a Direção Nacional da Central Sindical – CGTP-IN e foi como membro de várias delegações oficiais Sindicais da CGTP e da Base-FUT a todos os países Europeus, à América Central, à América Latina  e a África para debater e recolher informação e formação com o objetivo de estruturar o complexo sistema de defesa dos trabalhadores objetivado em melhores formas de luta e na construção de legislação, com vista à dignificação do trabalhador Português.

Na sequência da sua capacidade interventiva e dialogante foi nomeado pelo Estado Português à Assembleia Geral da Organização Internacional do Trabalho (OIT) em Genéve – Suíça, onde representou Portugal durante vários anos.

Integrou a Delegação da CGTP à CEE, em Bruxelas, aquando da adesão de Portugal à Comunidade.  Nesses tempos católicos, comunistas e socialistas trabalhavam lado a lado na mesma Organização. O nosso pai sempre granjeou amigos em todos os partidos, mas apenas militou o Partido Socialista.

Era um Homem de causas e de lutas…não era e nunca foi um gerador de conflitos, mas debatia as ideias e os ideais com determinação e de forma incisiva se fosse caso disso e não gostava de perder tempo com conversas onde nada se pudesse acrescentar.

 

Foi membro fundador do Instituto 1º de Maio da CGTP, em Lisboa

Foi membro fundador da Organização Contra o apartheid em Lisboa;

Foi Líder da Bancada Socialista na Assembleia da Junta de Freguesia de Stº António dos Olivais em Coimbra.

Foi Membro da organização da Caravana de apoio à Engª Maria de Lurdes Pintasilgo, aquando da sua Candidatura à Presidência da República… de quem era grande amigo.

A Base Frente Unitária dos Trabalhadores escreveu passo a citar – É um sindicalista a lembrar no 50º Aniversário da CGTP… na verdade, foi um dos seus históricos fundadores…. pode haver neste País grandes Sindicalistas, que os há…mas o nosso  pai…pelo conhecimento que adquiriu em  vida como trabalhador cuja experiência na área do trabalho passou pela agricultura,  indústria, contabilidade, jornalismo, banca, contencioso bancário, assim como pela direção de vários organismos associativos, bem como de organizações de formação das classes operárias e dos trabalhadores; com o domínio que sempre teve da legislação, da comunicação com o Mundo, a sua capacidade oratória e o saber que recolheu dos milhares de livros que leu, associados ao respeito que sempre teve pela dignidade do trabalhador e pela pessoa Humana, foi um dos Maiores Sindicalistas de que Portugal terá memória!

A Lisboa fica associada para sempre os nomes de José Luís Judas (o melhor amigo do meu pai); Fernando Abreu (o seu grande mentor); Vitória Pinheiro; Manuela Varela; Brandão Guedes e João Paulo Branco – a todos eles e a muitos outros fica o muito obrigada por terem publicado e realizado a sua intervenção na altura certa.

Obrigada por terem estado lá quando foi preciso!

Miranda do Corvo – Dizia o meu pai que era o local onde queria ficar até ao último suspiro e assim foi. Terra do bom vinho e da boa chanfana, não sei se foi pelo tenro sabor da carne da cabra que lhe fazia recordar a boa chanfana da terra que o viu nascer, era o seu prato preferido e foi na verdade o que jantou no sábado passado, comigo e com a Inês. Em Miranda Sentiu-se sempre em família, e dizia não conseguir viver noutro local… sinto-me daqui… abraçam-me como se me conhecessem desde sempre. A Dona Lurdes, o Senhor Patacas, as famílias, o Sr. Presidente da Câmara, o Dr. Jaime Ramos (grande amigo). Os jovens sorridentes e brincalhões. ERA Mirandense de Alma, tinha-vos a todos no coração!

Faz parte de uma instalação artística patente no Aqueduto de São Sebastião, vulgo Arcos do Jardim, em Coimbra, a frase de Manuel Alegre “Somos Jardineiros, não somos flores!”

Sabemos quem foram os jardineiros que perseguiram e intimidaram neste país…

Sabemos quem são os jardineiros que roubaram este País… vivendo faustosamente com recursos que são de todos nós.

O nosso Pai não pertence a nenhum destes grupos, pertence ao grupo dos Jardineiros Obreiros deste País…que plantaram uma utopia onde as flores simbolizaram a paz, o gesto de um povo que tolhido pela miséria proclamou uma aurora da liberdade!

Tu sabes que sempre foste, és e continuarás a ser o meu herói. Tu sempre soubeste fazer tudo…O verdadeiro herói constrói, não destrói, vive com os medos dos seres humanos, mas enfrenta-os com a coragem de perceber que esta é uma passagem que só poderá ser vivida quando os interesses de todos são os objetivos de muitos… e não os de uns quantos que com jogos de influências silenciosas manipulam contextos, procurando fazer dos outros aquilo que eles não são!

Ao Cláudio Calhau fica a palavra de um orgulho imenso e inexplicável…

Ao Henrique Calhau um obrigada e a saudade doce…

Aos irmãos…toda uma vida…fiz tudo o que podia…

Aos meus amigos…um abraço…companheiros…

À Carla e à Inês até um dia…

Termino dizendo que vamos enterrar… como me disseram ontem…um excelente e extraordinário Ser Humano.

Obrigada, Meu querido Pai!  JOAQUIM CALHAU

 

Junta-te à BASE-FUT!