AVELINO PINTO ,um histórico da JOC e um homem de muitas vidas!

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Avelino Pinto fez a 3 de dezembro passado a bonita idade de 90 anos! Para comemorar este aniversário esteve  reunido num restaurante em Lisboa com algumas dezenas de amigos e companheiros de trabalho ou de atividade na Juventude Operária católica (JOC).Ao longo da sua vida marcou muitos jovens enquanto Assistente da JOC e, mais tarde, manteve sempre uma estreita ligação ao associativismo e à formação cívica e profissional. A simplicidade, a resiliência e os afetos marcaram sempre a personalidade deste serrano do Teixoso que também foi professor de psicologia na Lusófona! Vidas destas dizem-nos que não podemos desistir de mudar o mundo e de ter esperança no futuro! Em homenagem aos seus 90 anos quisemos saber mais deste verdadeiro animador social. Eis o que ele nos revelou:

BG: A JOC foi das tuas primeiras experiências sociais. Que memórias tens desses tempos de trabalho com jovens trabalhadores?

A.P. – A memória mais antiga leva-me ao Seminário dos Olivais onde entrei em Outubro de 1953, e descobri que o colega Paiva Afonso tinha sido dirigente livre da JOC, antes de entrar. As conversas com ele e a leitura do JO – Juventude Operária e do BM – Boletim de Militantes que me mostrou, despertaram-me para um movimento novo, de jovens trabalhadores. O interesse foi tão forte que no verão, na minha terra, pequena vila da Cova da Beira, com amigos de escola, iniciámos um núcleo da JOC, que acompanhava por cartas. Nos meses de verão participei nas reuniões e nas atividades jocistas. Em outubro de 1959, na Festa de Cristo-Rei, o núcleo, passou a secção jocista.

No verão de 1958, com a aprovação do sr. Cardeal Cerejeira, fizemos, o Albino Cleto (mais tarde bispo de Coimbra) e eu, uma experiência inesquecível, que nos marcou para a vida: o P. António Jorge, assistente da JOC diocesana, conseguiu-nos um trabalho de um mês na CUF do Barreiro (no armazém do ferro e nas obras). Nos dias vividos com trabalhadores, nas conversas com o António (na casa de quem dormíamos), a Lisete e grupo de jovens amigos, mergulhámos na vida operária da vila que comparávamos a Ivry, ville Marxiste,

Seguiram-se os anos de coadjutor das paróquias do Barreiro e de Alcântara, de professor na Escola Marquês de Pombal, e 11 anos de assistente diocesano da JOC – as vivências, contactos, atividades, encontros com jocistas e jovens trabalhadores, vividos com paixão – fizeram de mim um homem comprometido com os jovens trabalhadores. Recordo ainda as viagens de férias – aprendizagem mais que relevante: o trabalho nas bananeiras (no kibutz Degania Alef, perto de Tiberíades); as idas aos sábados a Nazaré, Belém, Jerusalém; a convivência em Montreal (Canadá) com emigrantes portugueses, com assistentes da JOC numa semana de pastoral operária, foram tempos de descoberta de sentido para a vida, cuja recordação persiste e aponta caminho a seguir.

BG: A JOC vai comemorar 90 anos. Na tua opinião qual foi o grande contributo dos jocistas, primeiro ao combate à ditadura, e depois, ao Movimento Sindical após o 25 de Abril?

Em Aveiro – no 90º ano da JOC em Portugal e de 100º da JOC no mundo – os mais de 200 ex-jocistas que participámos, tivemos a sensação feliz de que, com aquele grupo de uma dúzia de raparigas e rapazes, a JOC renasce, que voltamos . E  veio à memória o Padre Joseph Cardjin,  nos arredores de Bruxelas, em 1910…A partir de 1910, em Laeken, (Bruxelas), o Padre Joseph Cardjin fez o ensaio com um grupo de jovens trabalhadores, recomeçou catorze vezes até ele se consolidar e nascer um movimento que se tornou mundial: a JOC, verdadeiro protótipo da Acão Católica. “Em 1925 (há 100 anos!) vê reconhecida pelo Papa a sua criação como movimento de Jovens trabalhadores com metodologia própria – a Revisão de Vida Operária. Em Itália, surge uma Acão Católica não especializada fortemente centrada na tradição da catequese.” (M. Augusta de Sousa)

Em Portugal, recorda-se o lugar dos padres Abel Varzim e de Manuel Rocha que tendo contactado com Cardjin, em Lovaina (onde estudavam), assinalaram ao Cardeal Cerejeira Patriarca de Lisboa um evento extraordinário da JOC belga, em que veio a participar, pensando logo lançar o movimento em Portugal, vindo a JOC a nascer em Alcântara, em 1935.

A participação dos jovens trabalhadores assume vários níveis de pertença e de compromisso: há dirigentes, militantes e principiantes. O foco principal reside na reunião de grupo, normalmente semanal, nas assembleias, nos cursos-base, retiros, peregrinações e publicações: – o Juventude Operária e Vida e Alegria (JOC e JOCF), o Encontro (JUC)…

A metodologia, assente no método ver-julgar e agir, no inquérito-base e no caso da semana, evoluiu, passa a centrar-se na revisão de vida, que se estende aos outros organismos, otimizando o contacto e a intervenção na realidade do dia a dia, e consolidando o compromisso pessoal, apoiado no compromisso grupal.

Apesar do político “ser terreno vedado, a organização das pessoas em grupo alargou-se ao país, com uma dimensão de irradiação: a resposta às necessidades das pessoas e das instituições, e o despertar para as questões sociais.

No grande encontro de juventude – OS NOVOS ESCOLHEM DEUS (abril, 1963), coordenado pelos dirigentes da JUC – Maria de Lurdes Pintassilgo e João Salgueiro, participam os jovens trabalhadorescomo atesta o texto de M. Elisa Salreta, presidente nacional da JOCF, na Guia da Militante (março, 1963, pág. 2):

 

Olhamos para a juventude trabalhadora – como anda afastada do verdadeiro caminho! As atitudes das nossas companheiras do meio de trabalho, as suas conversas mostram quanto o seu coração está cheio de ideias materialistas que se opõem à doutrina cristã. O próprio meio que nos rodeia, os meios de difusão, os divertimentos, as leituras, estão marcados do sentido materialista da vida…

Perante este estado de coisas… o Grande Encontro é um “espírito” de sempre que só acabará quando toda a Juventude se encontrar com Deus na Eternidade.”

 

Um acontecimento anual marcou milhares de jovens trabalhadores – a Jornada da JOC Internacional que se realizou em várias dioceses. Lembro a JOC Internacional de Lisboa de 1965, a primeira, por um motivo: a presença de Mons Cardjin, em Almada.

Com emoção se recordam cerca de 5 mil jovens operários nas ruas de Almada, Barreiro, Santarém, Torres Vedras, V. Franca de Xira, e Seminário de Almada (a última, 1973).

Importa realçar ainda, na Acão Católica e no País os Jornais Juventude Operária (JOC) e Vida e Alegria (JOCF), Jornal da JUC, Juventude Rural (JARC), sinais da vitalidade dos movimentos e da sua inserção na realidade nacional. Um dia, alguém fará a sua história.

Nos anos 60, consolidado o método ver-julgar-agir, deu-se o enraizamento da RVO – Revisão de Vida Operária, com os contributos do Padre Jardim e da Vitória Pinheiro (que percorreram o país nesse sentido).

A situação na Europa mudara, a tragédia das guerras no Ultramar atingira centenas de milhares de jovens, tendo muitos deles morrido na Guiné, Angola, Moçambique. Para aí seguiram milhões de aerogramas – uma corrente de apoio aos jocistas e jovens em guerra. Alguns assumiram essa ida como uma missão de evangelização, e publicaram pequenos jornais de ligação entre eles.

Em tempo de suspeita e tortura continuada cá e lá, pela PIDE, a Revisão de Vida Operária foi a ferramenta para ousar rever a vida do dia a dia dos militantes, e proporcionar um olhar diferente sobre os acontecimentos. Enraizada nos Movimentos Operários e outros meios, a RVO possibilitou analisar as situações com olhos de ver mais fundo e mais longe; aprofundar causas e consequências, à luz do Evangelho e da doutrina social da Igreja; conduzir os participantes ao compromisso que, assumido, era revisto na semana seguinte. O caso da semana, era/ é o momento em que se continua o processo de transformação, na visão sábia de Cardjin: “não pesco nem à linha nem à rede, mudo as águas”.

A RVO continua uma metodologia de paragem na vida pessoal, em grupo com outra repercussão, para ultrapassar dúvidas e incertezas, respeitar as diferenças, vencer medos sentidos. Na RVO encontramos o significado do que é ser responsável, da experiência da militância (como então se dizia), e da tomada de compromissos.

Vem à lembrança o pensamento do Dr. Narciso Rodrigues, assistente nacional da JOC, nos anos 60: “A RVO leva à vivência de um cristianismo vivo, de sentido operário, baseado nas mais simples e comuns realidades da vida operária.” Agora, como no começo.

 

 BG: És um homem de sete instrumentos; psicologia, comunicação social, formador e animador social. Todas estas dimensões fazem-te feliz?

Desde muito novo, sinto gosto e alegria em responder às solicitações que os outros fazem, ainda que o não expressem por palavras. Nas férias, adolescente, com os seminaristas da terra, púnhamos em andamento um passeio/visita a casa de algum mais abastado (com merenda na quinta, perto da Senhora do Carmo), uma subida à Serra, com uma vinda apressada, cabeças com uma manta, porque caiu uma chuvada monumental, o campeonato de ping-pong ou uma exposição rudimentar no salão junto da capela do Santo Cristo. Depois, nas férias de verão de 1954 a 59, foram as reuniões com o grupo da JOC que estávamos a formar.

Estes gestos abriram as portas para a intervenção social, como assistente e como professor (de Psicologia Social, na Lusófona, durante 20 anos), e como formador – nós, dizíamos “Animadores de Aprendizagem”, uma prática que despontou por volta dos anos 90, experiência que desde o começo assentou na preparação de vários módulos e  cursos, em equipa, no restaurante do Campo Grande (primeiro) e a seguir em salas que Amigos punham à disposição (o SITAVA – sindicato dos transportes aéreos); a BASE-FUT (na rua de S. Bento e na rua Maria)…

 

 BG: Foram vários os teus contributos à BASE-FUT, nomeadamente a animação do CCO durante alguns anos e a elaboração de boletins, revistas, etc. Como vês hoje o futuro das Organizações de trabalhadores?

Quero referir, antes de mais, que a BASE-FUT, após o 25 de Abril, constituiu um espaço onde foi possível concretizar – em liberdade – iniciativas oportunas, na altura.

O meu contributo teve início por voltas de 1965 ?, quando o F. Abreu me convidou a participar na equipa das Edições BASE que se reunia para ler originais de livros e orga- nizar o lançamento e distribuição de exemplares por amigos e conhecidos.

Desde 1980, a participação tornou-se regular, quando o Zé Manuel Duarte iniciava a secção da BASE-FUT na Covilhã (para onde ia trabalhar profissionalmente), e, daí a dias, participei num encontro de campanha de Lourdes Pintassilgo para Presidente da República, que o Cesário Borga e a Teresa S. Clara Gomes, protagonizaram.

Em 1983, regressado a Lisboa, integrei-me no CCO – Centro de Cultura Operária, onde, com um grupo de amigos (Brandão, J. M. Vieira, Alexandrina, Gracinda Tavares, António Fonseca e outros…) preparámos e realizámos intervenções, durante uma dezena de anos, salientando três mais significativas, para além de encontros semanais.

 

Encontros Culturais (anuais)

O primeiro, no salão do Sindicato dos Trabalhadores de Espetáculos, sobre temáticas do momento, teve significado especial. Na abertura, um grupo de jovens de Almada apresentou um conjunto de danças e o Artur Lemos, criou um ambiente inovador, coloquial, de descoberta, entre os muitos participantes que entendiam ser urgente estar, de outro modo, nas muitas situações de desigualdade que então se viviam.

 

As Semanas de Férias Culturais, decorreram no CFTL – Centro de Formação e Tempos Livres (Casal do Lobo, Coimbra): a primeira em Agosto de 1984, a casa estava ainda em construção (acampámos na mata, 11 adultos e 4 crianças), e a segunda, em Setembro, com a participação de 18 adultos e algumas crianças. Durante a semana, os tempos repartiam-se pela manhã (ida ao rio Mondego, para banho e passeio no rio, de caiaque que o António Fonseca construiu), e as tardes de reconhecimento de lugares da região, de interesse cultural e social (por ex. fábrica do queijo do Rabaçal).

 

Informação

A equipa dedicou-se a esta área tendo editado (mensalmente…) durante anos, o TRAÇO DE UNIÃO e depois o INFORBASE, com notícias do movimento e artigos com conteúdo cultural e social, numa perspectiva de  coesão e de intervenção política.

 

Desencantar o futuro, agora

Quando me perguntas sobre – o futuro das Organizações de trabalhadores, hoje, a questão requer uma reflexão mais profunda, que atenda a várias vertentes, pelo que, apenas acrescento algumas ideias gerais.

Para garantir o futuro duma organização de trabalhadores, é necessário, é indispensável muito engenho e arte, e uma motivação verdadeira e continuada, não comum, hoje. Luís de Camões escreveu um poema que cantamos “mudam-se os tempos mudam-se as vontades…”, e juntou uma sugestão- “troquemos-lhe as voltas que ´inda o dia é uma criança.” Esta bela e rara expressão convoca-nos a voltar a criança, a querer sonhar acordado, para desencantar esse futuro, agora. Estamos despertos e dispostos a arriscar de novo, como nos tempos da juventude – em 1974, 1975, 1976?

 

Outra nota: a força do grupo, ou da equipa (palavra mais forte…) é a ideia mágica.

Uma organização mantem-se, quando está assente e é garantida por grupos, uma vez que é o grupo, no meu ponto de vista, que prepara, organiza, põe em andamento as soluções que as questões do momento ditam como aquelas para as quais temos de encontrar resposta. Nessa altura, o grupo/a equipa, torna-se agente transformador ao gerar dentro de si mesmo a transformação – pela ação – dos seus elementos.

Estão neste quadro de ideias – as associações desportivo-recreativas, culturais, sociais, os sindicatos, as cooperativas com fim vário, mesmo as de índole mais política, cada uma com a sua perspectiva adequada que é indispensável respeitar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Junta-te à BASE-FUT!