Pedro Estevão*
Uma das imagens que ficará para a memória da Greve Geral de 11 de dezembro de 2025 é a do ministro da Presidência a desdenhar a greve como “inexpressiva”, lado a lado com imagens de ruas desertas em dia de semana e de dezenas de milhares de pessoas a desfilar entre o Rossio e São Bento. Foi uma figura triste de Leitão Amaro, mas é uma metáfora adequada da incompreensão que o Governo de Luís Montenegro demonstra quanto ao significado desta Greve Geral.
O Governo não compreendeu, em primeiro lugar, em que consistiu a adesão a esta greve. Apesar das garantias legais, sabe-se que, em muitos setores de atividade, aderir a uma greve é um ato de coragem. Quem o toma enfrenta muitas vezes a intimidação de patrões e chefias, com ameaças que vão desde a atribuição de turnos e horários indesejáveis até à não renovação de contrato, passando por prejuízos em avaliações de desempenho.
Maioria dos portugueses apoiou greve geral!
Dizer que uma Greve Geral é “inexpressiva” porque não conseguiu fechar todos os serviços, fábricas e lojas do país é, pois, desonesto. Mas, neste caso, revela ainda um estado de negação. Porque uma das características mais notáveis desta Greve Geral é a simpatia generalizada que suscitou, mesmo entre quem, por razões várias, optou por não fazer greve. Com efeito, os dados indicam que a larga maioria da população portuguesa apoiou a realização da greve e compreende os seus motivos[1]. Quaisquer que tenham sido os números efetivos da adesão direta – e tudo indica que foram elevados – é inegável que a adesão indireta à Greve Geral foi esmagadora.
O Governo não compreendeu também que a Greve provocou uma inversão dos termos do debate. A Greve Geral conseguiu colocar o trabalho no centro da discussão pública e em termos que são o verdadeiro coração das questões laborais: salários, tempo de trabalho, proteção do vínculo de trabalho, relação entre trabalho e família, negociação coletiva e direitos de reunião e de greve.
Isto não é um feito menor. Uma dos maiores sucessos ideológicos do capitalismo nas últimas quatro décadas foi precisamente impedir a discussão sobre o trabalho nestes termos. Biliões foram gastos para a empurrar para fora da agenda mediática, política e até académica e outros tantos para a ocultar por trás de uma fábula povoada por empreendedores, colaboradores e unicórnios. E agora, de repente, fala-se de trabalhadores, de direitos e de injustiça nas relações de trabalho a toda a hora e em todo lado. Algo que não era certamente o que as frações mais retrógradas do patronato tinham em mente quando desenharam a proposta do Governo. E algo que, suspeita-se, não devem querer que se prolongue por muito tempo.
Governo isolado e fragilizado!
Finalmente, o Governo não compreendeu como a Greve Geral reforçou o isolamento e a fragilização do próprio Governo. Ao mostrar um profundo desrespeito pelos sindicatos e pelos princípios e instituições de diálogo social, o Governo alienou até as correntes sindicais sociais-democratas e democratas-cristãs da UGT, bem como antigos ministros do trabalho do PSD (Silva Peneda) e do CDS (Bagão Félix). E agora, face à enfática rejeição popular a que a Greve deu corpo, mesmo a extrema-direita está hesitante sobre se e como aprovar a proposta do Governo no Parlamento.
O mérito do movimento sindical português no sucesso desta Greve Geral é indiscutível e merecedor de reconhecimento. Os dirigentes da CGTP-IN, da UGT e dos sindicatos independentes mostraram lucidez ao reconhecerem a gravidade do momento. Tiveram a coragem de relegar as divergências que decorrem das conceções diferentes de sindicalismo que preconizam e assim convergir sobre o que era essencial. E o trabalho de milhares de sindicalistas nos locais de trabalho e nos piquetes de greve foi fundamental para a adesão maciça a esta Greve Geral. Mas não se deve ignorar que a arrogância, a leviandade e a incompetência do Governo foram ajudas preciosas neste desenlace.
Resta saber se o Governo consegue perceber que o seu projeto de revisão do Código do Trabalho morreu com esta Greve Geral. Ou se, pelo contrário, se vai enredar numa longa guerra de desgaste por uma revisão sem qualquer pertinência, genuinamente impopular, que não constava do programa eleitoral da AD e face à qual perdeu o controlo dos termos de debate. O bom senso desaconselharia a segunda opção. Mas já se viu que a sensatez é uma qualidade que não abunda neste Governo.
*Coordenador Nacional da BASE-Frente Unitária de Trabalhadores, sociólogo.
12 de dezembro de 2025
[1] https://www.publico.pt/2025/12/10/politica/noticia/60-portugueses-apoia-greve-geral-sindicatos-populares-governo-2157609