Christian Lefeuvre*
Vivo em Portugal há vários anos. Em 18 de janeiro de 2026, no primeiro turno das eleições presidenciais, o candidato do Partido Socialista, António José Seguro, liderava. Ele enfrentaria o candidato populista radical de extrema-direita, André Ventura, no segundo turno. O terceiro candidato, o liberal Cotrim, recebeu a maioria dos votos entre os jovens, o candidato socialista entre as mulheres, enquanto o candidato de extrema-direita
conquistava cada vez mais votos entre os menos instruídos.
Do meu ponto de vista, o problema não é tanto o nível de escolaridade em si, mas sim a perda de interesse pela aprendizagem da democracia. Mesmo com baixa escolaridade, as pessoas muitas vezes demonstravam lucidez e capacidade de tomar as rédeas do próprio destino. A Revolução de Abril em Portugal não aconteceu por acaso; o analfabetismo e a baixa escolaridade não mantiveram o fascismo no poder. O povo português, em geral, foi capaz de virar a página e abraçar a democracia.
Para alguns, foi o máximo de uma luta; para outros, uma abertura e uma lição de vida democrática. Então, o que esteve errado agora que o povo português já não sofre com o analfabetismo e elevou significativamente o seu nível de escolaridade? Que conhecimentos foram negligenciados? A aprendizagem da democracia? A arte de conviver com os outros? Espaços concretos para a aprendizagem da democracia? O desenvolvimento do pensamento crítico? A ênfase excessiva em questões de identidade e a perda de valores de solidariedade?
Um mundo construído sobre o medo do outro, esquecendo a riqueza da esperança e do compromisso com um mundo melhor? Sem dúvida, um pouco de tudo isso, e muitas outras explicações racionais, mas uma coisa é certa: a ignorância alimenta o populismo. Para ser um cidadão pleno, alguém que não se deixa manipular por propagandistas — e eles são numerosos e eficazes com os novos meios de comunicação social —, é preciso conhecer e compreender o mundo ao seu redor. Cultura e educação são, portanto, prioridades se não quisermos resignar-nos à regressão, se quisermos influenciar o curso dos acontecimentos por meio da partilha e da generosidade.
*Animador e dirigente da Associação francesa Culture et Liberté, investigador social e sindicalista