Lembrar «FERREIRINHA», o histórico sindicalista brasileiro

Claudio Nascimento*

José Domingos Cardoso. Dito “Ferreirinha”, ”Seu ZÉ” para seu amigo jocista ,padre Agostinho Pretto. Foi dirigente da JOC Internacional e Coordenador Nacional da JOC Brasileira. Metalúrgico, fundador da CUT e do PT. Exilado na Europa, coordenador do GAOS; a partir de de sua volta ao Brasil ,fundador e Secretario-Geral do Centro de Educação e Ação Comunitária (CEDAC) (de 1984 a 1987).Em 1984-85,foi Secretario de Formação da CUT-RJ ; nos anos 90,trabalhou na Secretaria de Organização                              Sindical da CUT Nacional ( com Miguel Rosseto, Durval Carvalho e Zé Olivio), e no DNM (na Comissão Nacional  de “Novas Tecnologias e Automação”, com Olivio Dutra).Na CNM (secretario de Relações Internacionais) e presidente do Instituto “INTEGRAR”. Ferreira faleceu em Janeiro de 2001.

Quem era Ferreirinha?

Nascido a 12 de dezembro de 1940, exerceu intensa atividade politica em termos da vida da classe trabalhadora brasileira.

Foi presidente da Juventude Operaria Católica (JOC) brasileira no periodo de 1964 a 1967.Entre 1968 e 1969,foi dirigente da JOC latino-americana. Já no exilio, no inicio dos anos setenta, foi dirigente da JOC Internacional (1972-75) nos setores de formação e informação, bem como responsável pelos países africanos de língua francesa

Durante o exilio (1972-790 esteve na Bélgica (até 1975) e na França (até o retorno ao Brasil, em 1979).Desenvolveu vínculos extensos e profundos em termos de trabalho sindical especialmente com a CFDT e a CSC. Na França, fez cursos de técnico eletricista industrial, sendo membro da seção sindical da CFDT na escola em que estudava.

Ferreira coordenou o Grupo de Apoio à Oposição Sindical no Exilio, construindo  a solidariedade com o novo sindicalismo brasileiro–CUT. Na sua volta ao Brasil, desenvolveu amplo trabalho de formação sindical em todo o pais, a partir do Coletivo de  Formação Sindical do CEDACl

De volta ao Brasil, em 1979,foi um dos fundadores do centro de Ação Comunitária (CEDAC),voltado para a assessoria ao movimento sindical, aos movimentos comunitários e as pastorais sociais. Entre 1980 e 1982,foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT) no Rio de Janeiro e membro de sua executiva, bem como membro da direção nacional do Partido.

Com a fundação, em 1983,da Central Única dos Trabalhadores (CUT),fez parte da primeira diretoria e executiva no estado do Rio de Janeiro. De 1984 a 1987,exerceu o cargo de Secretario –Geral do CEDAC.

Com a vitória da Oposição Sindical dos Metalúrgicos no Rio de Janeiro, torna-se diretor do Sindicato (a partir de outubro de 1987).Exerce ainda, dentro da CUT. o cargo de Secretario-Geral do Departamento Nacional dos Metalúrgicos. Participa, por fim, da Comissão Nacional da CUT para Novas Tecnologias e Estudo da Automação.

   Fundador do  CEDAC

Os fundadores do CEDAC são majoritariamente trabalhadores oriundo dos movimento de Igreja,alguns intelectuais , sacerdotes e bispos. Assim sendo, na génese do CEDAC está o encontro de trabalhadores e intelectuais, cristãos e não cristãos.

 

O CEDAC surge então e organiza-se sob a forma de uma associação civil, autonoma em relação às Igrejas, ao Estado e aos Partidos Políticos, tendo a autogestão social como um dos seus princípios de base(grifo nosso).

Procura criar condições para que os trabalhadores se articulem, criem suas próprias organizações tornem-se sujeitos de sua própria historia e desempenhem o papel que lhes correspondem na construção da sociedade como um todo. naquela conjuntura, atua necessariamente como Entidade de “serviço” aos trabalhadores confundindo-se, não raro, com os movimentos que apoia.

Algumas Ideias de Ferreira

Ferreira ,em entrevista à Coletânea “Vida Jocistas” , um pouco antes de sua morte , fala-nos de suas ideias no regresso ao Brasil.

“Todos nós que participamos da JOC acumulamos conhecimentos e adquirimos uma  percepção dos problemas sociais.

Destaca também o Método Jocista, “ VER-JULGAR-AGIR “,aqui está o ver, aqui está o Julgar, aqui está o Agir.

Muita coisa hoje no trabalho sindical ou politico- partidário teve também influência do pessoal da JOC, da JUC e de outros ramos da Ação Católica, que contribuíram muito para questão da metodologia, do respeito, da coerência”.

Por uma nova visão socialista humanista- ecológica

Ferreira fala da ‘herança da esquerda cristã- socialista”:

“Felizmente, na esquerda hoje, os cristãos engajados e os socialistas ,que romperam com aquela doutrina estatal, burocrática e totalitária no mundo inteiro, estão construindo, pela sua militância, um novo critério democrático de revalorização da pessoa humana. O cristão engajado contribuiu bastante para essa nova posição, que é bem clara hoje na Europa, sobretudo na França.

Contribuiu muito para essa mudança uma visão nova do meio ambiente, de respeito da natureza – a ecologia – que leva também ao respeito da pessoa humana e da sociedade.

Esse é o lado positivo de hoje que veio dos cristãos e da esquerda socialista. Mas há também um lado negativo, hoje predominante, que apenas valoriza o individuo como mercadoria, como consumidor, e acabou. E´ o grande problema da globalização, onde a pessoa é reduzida a um instrumento dentro do mercado. E vai ao extremo de dar ao mercado um espirito :”o mercado é tudo”.

Nos contatos em França, com o PSF e o PSFU, mas sobretudo na CFDT, Ferreira bebeu as ideias sobre ‘socialismo autogestiónario’,aprofundou sua visão sobre uma ‘nova sociedade’. Como já vimos acima, foi o ‘espirito da época’ que encontrou no exilio francês.

Essa entrevista é de 1999 ou 2000,Ferreira já traça alguns temas fundamentais para os anos 2000,que viriam ao debate nos Foruns Sciais Mundias em Porto Alegre ,2001 a 2003:

“No capitalismo globalizado o individuo é até supervalorizado, mas em função do consumo, do seu poder de compra. É importante porque é consumidor. Ai´estão os meios de comunicação – os midia– que instrumentalizam as pessoas a consumirem um determinado produto.

Enquanto cristãos temos que lutar contra isso. Está havendo uma luta por parte da Igreja, da ciência, dos ambientalistas, na defesa da sobrevivência do planeta. Diversas correntes de pensamento começam a questionar a globalização, o mercado –senhor de tudo e das pessoas.

Ferreira faleceu de cancro em janeiro de 2001.Foi homenageado por diversas vezes.

 

1) Nota no Senado

(de seu companheiro sindicalista do Rio, Geraldo Candido, dirigente do Sindicato dos metroviários).

No Congresso Nacional, ”Atendendo requerimento do senador Geraldo Candido (PT-Rio),apresentado nesta quarta-feira (dia 21-02-2001),o Senado decidiu aprovar voto de pesar pela morte do sindicalista José Domingos Cardoso, o Ferreirinha, metalúrgico do Rio de Janeiro. Ferreirinha foi fundador do PT e da CUT, além de militante da ACO.

-Apresento esse requerimento para fazer justiça a esse grande metalúrgico do Rio de Janeiro. A sua morte foi uma grande perda não só para a CUT e o PT, mas para todos os trabalhadores brasileiros- afirmou Candido.

O senador fez um perfil biográfico do sindicalista que, nascido em Joinville (SC),foi perseguido durante a ditadura militar. Exilado, ao Brasil em 1979,com a amnistia. Candido informou que Ferreirinha participou da filiação do Sindicato dos Metalúrgicos do RJ e à CUT em 1987.Diretor de relações internacionais da CNM da CUT. Ferreirinha tina 60 anos.

Em nome do PSB, o senador Roberto Saturnino (RJ) afirmou que Ferreirinha sempre lutou pela melhoria das condições de vida da classe trabalhadora.

-Era um socialista de biografia exemplar e ética, defesa dos direitos dos trabalhadores. O Rio de Janeiro está de luto coma perda de um grande companheiro – disse Saturnino.

-O senador José Dutra (PT-SE) associou-se às palavras de Candido e Saturnino. E informou que foi uma satisfação conhecer Ferreirinha, com quem militou no movimento sindical.”.

 

2) Nota da Fundação Perseu Abramo (PT) ,pelos 85 anos de Ferreirinha:

“85 ANOS. José Domingos Cardoso, O Ferreirinha.

Militante histórico da luta democrática e figura central da organização popular no Rio de Janeiro, Vida dedicada ao povo, à resistência e ao Partido dos Trabalhadores.

Hoje completam 85 anos do nascimento de José Domingos Cardoso, o Ferreirinha, liderança marcada pela defesa incansável da democracia, pela organização popular e pelo compromisso com um projeto de país mais justo.

Figura importante da construção politica no Rio de Janeiro e integrante do Diretório nacional do PT/RJ, Ferreirinha dedicou sua vida à formação militante, à mobilização de abse e ao enfrentamento das desigualdades que atravessavam o Brasil.

Sua trajetória segue como referência para quem acredita que transformações profundas são feitas com participação popular, coragem e solidariedade”(FPA,12 dezembro 2025).

Memória : relação com a BASE-FUT

Na obra comemorativa dos 40 anos da BASE-FUT,”pela Dignidade do Trabalho.Utopias e Praticas do Trabalho de Base”(1974-2014),podemos ler:

“1.Missão no Brasil- Apoio à Oposição Sindical Clandestina:

No inicio de 1978,o padre Jardim Gonçalves ( do CCFD da França…)foi contatado pelo Núcleo da Oposição Sindical Brasileira (OS) sediado em Paris (constituído por militantes sindicais brasileiros que, devido a repressão da ditadura militar, tiveram de se refugiar em França),no sentido de apoiar e ajudar a organizar uma missão de auxilio a Núcleos da OS brasileira(…).Essa incumbência foi delegada a FERNANDO ABREU que, em fevereiro de 1978 se encontrou com o responsável da OS, JOSÉ CARDOSO (Ferreirinha),antigo presidente nacional da JOC Brasileira, para planeamento da missão. A chegada ao Rio de Janeiro foi em 1 de Junho de 1978 (…).A missão teve por objetivo reunir com responsáveis de Núcleos clandestinos da Oposição Sindical”.

 

PS:* A BASE-FUT lamenta a morte prematura de Ferreirinha, grande sindicalista e amigo que trabalhou com a BASE-FUT no âmbito da Oposição Sindical Brasileira nos finais da década de 70.O texto aqui publicado é também o testemunho de outro grande nosso amigo, Claudio Nascimento, sindicalista, formador, historiador e investigador da autogestão. Está a ser publicado no Brasil um livro sobre «Ferreirinha».

Claudio Nascimento, que também foi torturado pela ditadura brasileira e exilado, colaborou  com as «edições Base» na publicação de várias obras , nomeadamente sobre as lutas dos trabalhadores brasileiros e polacos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Junta-te à BASE-FUT!