Desenvolver o interior com o interior é possível

 

Julio Ricardo*

Visão estratégica do desenvolvimento do território do Barroso e de como convocar à participação as pessoas, as associações e as comunidades para alcançarem a valorização do território, através dos factores de diferenciação identitária.

Vai longa a discussão sobre o desenvolvimento dos territórios a partir dos seus recursos endógenos ou a partir de recursos externos. Criar desenvolvimento a partir daquilo que cada terra tem ou esperar que os territórios sejam bafejados por oportunidades externas, chegadas das mais diversas formas?

Enquanto se espera, é natural que as pessoas deixem esses territórios e partam para as cidades mais próximas, para os grandes centros urbanos do litoral ou para outros países, acontecendo a desertificação humana.

Para David Teixeira,Vice-Presidente da Câmara Municipal de Montalegre, a possibilidade de desenvolver a partir das potencialidades dos territórios, começa por identificar a identidade cultural e comunitária e depois definir uma estratégia de desenvolvimento local. Colocam-se duas questões iniciais:

– que visão para este desenvolvimento territorial?

– como fazer para que as pesssoas e comunidades se envolvam neste desenvolvimento?

Montalegre é um vasto concelho com 815 km2 e cerca de 80 km de fronteira com Espanha, num ambiente de montanha a que se associa a agricultura de montanha e o pastoreio de gado caprino e bovino (a caraterística raça bovina barrosã, com os cornos em lira), de forte identidade comunitária por se incluir no Parque Nacional da Peneda-Gerês.

Por este ambiente e pelo trabalho realizado, em2018, a UNESCO atribuiu-lhe a classificação de “Território agrícola mundial”.

Património como fator de identidade

Na década de 90, iniciado o processo de desenvolvimento local, a partir do diagnóstico do território, o Município decidiu que era pertinente convocar o património imaterial e material, como fator de identidade e de ponto de partida para valorizar as pessoas e os territórios. O Plano envolveu diversas vertentes, como o trabalho de sensibilização para o património nas escolas, mostrando e dando valor ao que se tinha, desde o forno do povo, a casa do boi comunitário, o ambiente rural, a componente agrícola, a paisagem, etc.

Em complementaridade, os investimentos no território criaram pólos temáticos num conceito de eco-museu, com o património e os valores de cada aldeia com forte identidade. Por exemplo, Pitões das Júnias, Tourém, Salto, criaram museus e centros interpretativos, recuperaram e revitalizaram o edificado comunitário, o restauro e a conservação dos instrumentos e alfaias agrícolas. No núcleo museológico mineiro das minas da Borralha e imaginário do contrabando (Vilar de Perdizes).o mesmo se passou

Em 2010 fez-se a intervenção final do projeto na sede do concelho, como pólo centralizado do Eco-Museu do Barroso, com capacidade para orientar a partida dos visitantes para os diferentes locais do concelho.

Outra ideia-chave importante – preservar a memória, mas evitar a cristalização da tradição. Assim, associando-se uma visão de modernidade, de vivência ativa desse património, desde a sua refuncionalização até às mostras e reconstituições etnográficas, as aldeias e associações passaram a ser guardiões e jardineiros do território.

Foram trinta anos, ao ritmo do dia e do ciclo do sol, a percorrer da periferia para o centro, aldeias, vilas, campos, serras, rios, escolinhas, associações, para ouvir e ver, encontrar saberes e sabores antigos, envolvendo todos na estratégia comunitária do concelho.

Criaram-se dinâmicas sócio-económicas gerando riqueza de base local e sentimentos de pertença e de identidade, e, pouco a pouco, nasceu nas pessoas um sentimento positivo perante a sua terra, levando ao reforço de laços identitários.

Em tempos, quando alguém de Montalegre, em Lisboa ou no Porto, precisava de localizar a sua terra, a resposta era: sou de perto de Chaves, depois passou a dizer que era da terra do Pe. Fontes. Agora dizem que são da terra do fumeiro e das sextas-feiras, treze.

Desenvolvimento com quem e para quem?

Coloca-se .uma questão muito forte: fazer que desenvolvimento, com quem, para quem

Olhar para os mais novos como potenciais destinatários da intervenção, sensibilizando-os para verem o território como uma oportunidade…implica equacionar.verdadeiras possibilidades dos territórios para agarrarem os jovens. E ultrapassar um verdadeiro constrangimento que está vinculado, afirmando, ao mesmo tempo, que os territórios de baixa densidade podem ser territórios de oportunidades.

Quando as pessoas e os territórios têm esta visão partilhada entra-se na fase da gestão do processo, articulada com uma observação e avaliação atenta. Por exemplo, os emigrantes já não voltam a Montalegre só para viver o tempo de reforma. Muitos vêm colocar os seus filhos nas escolas de Montalegre e criam pequenos negócios, projetos de transformação de produtos agrícolas, oficinas de serviços de base local, que animam o território

Devido à pandemia, em janeiro deste ano, a Feira do Fumeiro aconteceu de modo virtual, com um sucesso tal que se conseguiu escoar a toda a produção, o que demonstra a pertinência das redes sociais e do mundo digital como forma de dinamizar os territórios. Ao mesmo tempo, o Eco-Museu do Barroso consolidou-se como pólo dinamizador e aconteceu um forte incremento turístico, em termos de visitação e alojamento. Foi necessário, em certos momentos, condicionar o acesso das pessoas para evitar o impacto negativo e a massificação que prejudicam a vida normal das aldeias.
Por força do PDM, condicionou-se a construção urbana nas aldeias pelos emigrantes evitando a sua habitual descaraterização, sendo agora as pessoas a recuperar as casas antigas e a manter as caraterísticas rurais das aldeias, preservando a sua identidade rural.

Com as dinâmicas já consolidadas, um novo meio rural está a acontecer, o turismo e o escoamento asseguram os produtos do fumeiro e contribuem para aumentar o gado bovino e caprino. Porseu lado, a Coperativa de Montalegre está a escoar toda a batata de semente produzida na região, e a Rota do Contrabando será quando os visitantes a marcarem, como no caso dos Amigos que a querem percorrer em Setembro.

*Júlio Ricardo é professor e cooperativista

 

Ver A. Lourenço Fontes, Etnografia TransmontanaCrenças e Tradições do Barroso (.vol. 1, a que se seguiu o vol. 2 e 3, 1992, Editorial Domingos Barreira, Lisboa).

 

 

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