“Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra…
E assim irás sempre em frente com a pesada mão do sol pousada nos teus ombros,
Mas conduzida por uma luz levíssima e fresca “…
Lá dentro (da igreja) ficarás ajoelhada olhando o branco das paredes e o brilho azul dos azulejos! Aí, escutarás o silêncio…”
Cântico da Manhã, Sophia de Mello, Livro Sexto
Avelino Pinto*
Nos primeiros anos da década de 70, viera de Valpaços (Trás-os-Montes), a Conceição de Carcavelos e damos pela sua presença em grupos de empregadas domésticas. Trabalhava em casa de um casal alemão, na linha do Estoril), destacava-se como animadora natural de um grupo ligado à JOC: Por todo o país nascia a organização das empregadas domésticas, que se uniam e porfiavam no debate das dificuldades porque passavam. Queriam encontrar uma saída para a sua vida, uma vida dura que se iniciava de manhãzinha cedo, pelas 6 da manhã e se prolongava pela noite dentro.
O grupo da Conceição e outros grupos da cidade reuniam-se aos domingos à tarde, e a dada altura, alguém propôs às outras: e se nos encontrássemos na sala grande do terceiro andar da Rua da Condessa, ao Carmo, que é a sede da JOC, um sítio central à nossa disposição?
Nas tardes de domingo, entravam com receio, escutavam um pouco e ficavam admiradas e admirados: uns 70 a 80 jovens, de ambos os sexos, empregadas domésticas, conhecidas e desconhecidas, vindas das aldeias com 13 e 14 anos, ou 8 e 10 anos por vezes, marçanos de mercearias, de carvoarias, da construção civil e “magalas”, falavam das suas vidas com à-vontade. Apareciam nos encontros abertos do Grupo do Arco – Íris, um nome que podia significar a união que se ia estabelecendo entre eles. Algumas vezes, continuava nos debates sobre os diretos sindicais, no Seminário de Almada, nos passeios ao castelo de Sintra, na peregrinação a Fátima, ou nas celebrações do 1º. de maio. Foi preciso tempo para descobrir que ouvindo-se, podiam chegar mais longe.
Nessas tardes, o João Lourenço e a Conceição Ramos, foram ganhando experiência, eram aceites… e levavam o barco para a frente.
–Nós, vamos estando atentos – não é fácil numa sala quase cheia – e pedímos – Silêncio! Vamos escutar, e depois falar!
Eram tardes orientadas pelo método ver -julgar – agir, onde vinha ao de cima a vida de cada uma e cada um – as patroas, as horas mais que muitas de trabalho, as preocupações do momento, arranjar trabalho para quem fora despedido, cuidar da doença de outra, apoiar nas desavenças… Tudo o que se passava no local – o bom e o mau – vinha para a mesa e concluíamos: havia uma exploração que atingia todos e todas. O mais importante, porém, foi descobrir que ninguém (salvo rara exceção) tinha direitos sociais, ou acesso à saúde, ou reforma, ou fazia descontos. Trabalhas, muito bem; não trabalhas, não és nada.
A ideia de um abaixo-assinado das empregadas domésticas nasceu, e como tinha pés para andar, foi possível reunir umas 180 mil assinaturas, que foram entregues ao governo do Marcelo Caetano.
A partir daí, finalmente, as empregadas domésticas começaram a descontar a cota mensal de 2$50, e os patrões o contributo mensal de 7$50. E assim, tiveram direito à segurança social, aos serviços de saúde, à reforma na velhice…
Um grupo forte e organizado, ligado a outros do país, levou a luta por diante: a Conceição Ramos (de Carcavelos) a Odete do Estoril, a Teresa de Évora, o João Lourenço, a Ana da Luz, outra Conceição, a Angélica (do Porto) e muitas empregadas domésticas batalhadoras, com espírito de serviço, que não podemos esquecer, deram tempo, dinheiro, esforço… e coração, para que a luta chegasse a bom porto..
Depois, com o grupo firme e coeso, desperto para a dignidade da pessoa humana, com consciência de classe, com alguma experiência de participação sindical e contactos com grupos do Porto, da Figueira de Foz, de Setúbal, entrou-se numa segunda fase.
Procedeu-se à organização de uma lista com assinaturas, avançou-se em encontros com outras organizações sindicais, e …assim, com mulheres que mal sabiam ler e escrever, fez-se o Sindicato das Empregadas Domésticas e Mulheres a Dias, do qual a Conceição foi dirigente durante 8 anos e de 17 como empregada doméstica!
As mulheres tinham a consciência de que era possível ultrapassar as desvantagens, e que podiam ter outra vida, ir mais longe, e partiram para a organização da Cooperativa COOPERSERDO, que agregava um refeitório, uma creche (que ainda continua) uma lavandaria, um conjunto de serviços a prestar ao domicílio. Também no Porto se ergueu uma cooperativa e em Évora, uma creche
Em todas estas etapas, apareceram mulheres firmes que garantiram a realização dos sonhos.
Lembramos nesta hora a Conceição Ramos, que faleceu em Chaves no passado domingo. A sua confiança e segurança pessoal, foram pilares de construção duma oba coletiva, e sempre reconhecida uma entre elas. Agradecer-lhe, é um acto de reconhecimento.
Avelino Pinto (abril, 2026)
** Ver “A Luta das Empregadas Domésticas”, de Olegário Paz (Edições BASE, 1980.
** “Empregadas Domésticas e Mulheres – A – Dias em Portugal”, de Lieve Meersschaert (Edição do Centro de Documentação Eduardo Pontes, da Associação Cultural Moinho da Juventude e Lieve Meersschaert)
- Mestre em Psicologia, Formador e Animador Social